Fahrenheit


17/10/2009


 

Irmão assassina Hélio Oiticica

   Na noite de ontem para hoje um incêndio na casa da família do artista plástico Hélio Oiticica no Jardim Botânico no Rio de Janeiro destruiu quase todo acervo do artista, justamente no momento em que ele estava em alta no mercado internacional. Oiticica não é o tipo de artista que tem muita coisa em coleções por aí afora. Então o estrago é irreparável. Um acervo destruído era formado por pinturas e esculturas. Algo perto de 2 mil obras. O prejuízo cultural é simplesmente incalculável. O financeiro avaliado em US$ 200 milhões.

   César Oiticica, irmão do artista, saiu com esta resposta: “Sinto que eu fracassei na minha missão, depois que me aposentei, era cuidar da obra dele, da divulgação e da guarda da obra dele”. Sente? Pode ter certeza, mano. Você foi um perfeito fracasso. Adianta o sujeito dedicar a vida a produzir uma obra que tem ressonância nacional se tem um irmão deste naipe? É brincadeira. Mas se fosse um caso isolado, poder-se-ia dizer que era um caso isolado. Mas o Rio de Janeiro em matéria de responsabilidade com coisa coletiva tem dado muitos maus exemplos, isto contando que a tradição brasileira não é lá grande coisa. Mas o Rio, o carioca, quer mesmo é bater recordes.

   Não é de hoje que a gente cisma com uma certa falta de responsabilidade do brasileiro com a coisa pública e este comportamento que beira às raias da irresponsabilidade quando não a supera com folga, causa um prejuízo danado à coletividade, quando a coisa cai no Rio. O incêndio do MAM em 1978 que consumiu obras de Picasso, Miró, Max Ernest, René Magritte, Salvador Dali, Di Cavalcanti e quase toro acervo de Joaquin Torres-Garcia, um artista uruguaio muito conceituado até hoje, que estava exposto lá e não pertencia ao museu, foi um escândalo internacional. E ficou nisso. Porque fogo ninguém prende e manda pro xilindró. E ele não devolve o que leva. Tem gente que calcula que 90 por cento do acervo foi pro vinagre. Se não tivesse sido destruído, o museu poderia ser hoje uma referência em arte moderna, como é o MAC de São Paulo, disputando a condição de segundo maior museu do País. Hoje é merreca (em relação ao que tinha), embora ainda tenha algumas coisas por lá, como Pollock e Brancusi.

   Depois veio a deterioração do acervo da cinemateca, que não se perdeu porque foi transferido para São Paulo. Furtos não recuperados de obras na Biblioteca Nacional viraram coisa normal. Assim como no museu da Chácara do Céu de onde saíram obras de Picasso, Matisse, Claude Monet e Salvador Dali. O Matisse avaliado em US 13 milhões. Isto sem contar com a deterioração do acervo reunido por Nise da Silveira para o Museu do Inconsciente que praticamente ficou jogado às traças depois que ela morreu.

   Depois o pessoal cisma – e vamos registrar, o carioca, o povo carioca não vibra com uma coisa destas, na realidade tem vergonha – e os que comandam o estado acham que é perseguição. Por exemplo: o recente escândalo com o uso dos recursos para sediar os Jogos Pan Americanos, avaliados inicialmente em R$ 400 milhões e que custaram a bagatela de R$ 4 bilhões. Onde foi parar o resto? O gato comeu, claro. E agora tem o negócio a longo prazo dos Jogos Olímpicos, avaliados em R$ 30 bilhões. Onde vai parar esta grana? Nem é preciso ir numa cartomante. E no meio a Copa do Mundo. Com tanta responsabilidade demonstrada em ocasiões anteriores, acho que a única reação diante do que vai acontecer e sentar e chorar antecipadamente.

   Como diria o comentarista Neto, da TV Bandeirantes, é brincadeira sô! Oiticica teve uma morte terrível, foi encontrado apodrecido no seu quarto, o que é cruel, sinal de abandono. E agora o seu trabalho, reconhecido internacionalmente, foi destruído, o que é sinal de abandono. Foi assassinado duas vezes, por abandono e irresponsabilidade.

 

Escrito por Iskandar, o ogro da Zona Dois às 10h56
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09/10/2009


O corcunda sedutor


   O corcunda tinha um olho verde e outro azul, que era de vidro, depois de uma partida entre Britânia e Primavera. O beque alemão pulou mais alto e forte e bateu na testa do corcunda, que ficou cego na hora de um olho. O olho prejudicado foi retirado. O médico só tinha olho de vidro azul no estoque e o corcunda balançou a cabeça triste: “Não tem importância, vai azul mesmo”. Ele ainda jogou bola com a camisa vermelha e branca, número 9 nas costas até o dia em que o alemão, agora jogando pelo Palestra entrou na perna do corcunda e quebrou o joelho. O corcunda ficou manco. E passou a arrastar a perna esquerda. A irmã do alemão ficou com pena do corcunda, tinha por ele aquele afeto que as crianças tem por filhotes de pássaros que despencam do ninho na calçada. Até aí, tudo bem, não fosse a irmã do alemão uma dona muito gostosa e meio sem juizo. Era uma alemã loira, de olhos verdes, bonita, chamada Ingrid. Uma noite no Vasco da Gama, o corcunda aproveitou que o alemão estava bêbado e que Ingrid tomou dois copos de chope com dose de Steinhaeger mergulhada em seu interior e a tirou para dançar. Apesar de corcunda e arrastando o pé para um lado, ele dançava bem. E ele soprou nos ouvidos da deusa germânica alguns versos de uma canção chamada “Plaisir D'Amour”, em francês. Ninguém sabe se foi a música ou o Steinhaeger que o corcunda colocou no chope da dona, mas naquela noite o corcunda arrastou Ingrid para as bandas do cemitério municipal e no silêncio da noite deflorou a irmã do alemão, que na hora do prazer arranhou a corcunda do corcunda, que ficou em carne viva. A bela moça engravidou e o alemão quis matar o corcunda. Quem não deixou foi o presidente do Palestra. “Você vai preso. Nunca mais vai jogar bola”. Jogar bola era tudo que o alemão queria na vida. Estava para entrar no time profissional. O alemão disse para o corcunda nunca mais aparecer perto da irmã dele, se não quisesse conhecer o cemitério municipal antes do dia 2 de novembro. O corcunda respondeu: “Tudo bem”. E por prudência foi para as bandas do Água Verde. Ele acabou sendo diretor social do clube e cantou muitas vezes “Plaisir D'Amour” nos ouvidos de muitas moças, algumas delas loiras de olhos verdes e outras não, mas algumas ficaram grávidas, outras não. O mais estranho era que nunca deram queixa do corcunda na pólícia. E quase todas achavam lindos aqueles olhos de cores diferentes e aquele jeito de andar meio dançando, duas heranças que o alemão deixou para o corcunda. A corcunda era de nascença. Mas o segredo do corcunda era o Steinhaeger que ele colocava no chope das moças.

Escrito por Iskandar, o ogro da Zona Dois às 11h14
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06/10/2009


Bundas, seios & Cia

Na fila do supermercado, o cara olha a dona. Uma gostosa. A dona gostosa irritada com a fila está inquieta. Em sua inquietude movimenta as ancas de um lado para outro. Impossível não ver, a única coisa interessante no mercado. O cara olha a bunda da dona na hora que ela vira a cabeça e dispara: “O que está olhando, palhaço?”. “Nada”. “Como nada, você não desgruda o olho da minha bunda”. “É a fila, dona”. “Primeiro eu não sou dona. Segundo o que a fila tem a ver com seus olhos grudados na minha bunda?”. “É que a senhora está na minha frente e a bunda da senhora está entre nós”. “Entre nós? A bunda faz parte de mim, seu palhaço”. “Sim, dona, é a parte da retaguarda da senhora mais próxima de mim. É impossível não vê-la”. “Você está querendo dizer que eu tenho a bunda grande?”. “Não. Eu disse que ela está na minha frente e assim uma das poucas opções que tenho é olhar para ela”. “Por que você não olha para outro lado?”. “E que se eu virar a cabeça eu enfio os olhos nos peitos da dona de trás. Vai ser ainda mais estranho”. A dona de trás, de cabelos pretos curtos e olhar safado, disse: “É isso mesmo”. A dona da frente estava puta da vida com o supermercado, mas o cara sabia que se ele bobeasse, ele ia pagar a conta. Ela ia fazer escândalo e dizer que tudo começou por causa dele, dos olhos dele grudados na bunda dela, uma bela bunda, por sinal. Por isso ele estava pegando leve, muito leve. “O senhor por acaso pensa que eu sou idiota?”. “Isto é coisa que nunca me passou pela cabeça, minha senhora”. “O senhor sabia que eu sou casada?”. “Não, não sabia”. “Eu vou mandar meu marido falar com o senhor”. “Tudo bem”. “Ele vai quebrar a tua cara, palhaço”. “Tudo bem, minha senhora”. “Tem certeza que é tudo bem?”. “Sim. Mas ele também corre o risco de sair com a cara quebrada”. “Ele é capitão do exército”. “Então ele não vai quebrar a cara de ninguém, minha senhora”. “Você acha que meu marido é covarde?”. “Não, minha senhora. Ele não vai correr o risco de perder uma promoção no futuro por causa de uma briga idiota com um sujeito que estava olhando a bunda da mulher dele na fila do mercado”. “Não vai?”. “Claro que não. O Exército só promove quem briga pela pátria e não pela bunda da esposa, por melhor que seja”. “Você está dizendo que meu marido é frouxo?”. “Eu acho que ele deve ser tão firme quando a bunda da senhora, mas para tudo tem limite”. “E qual é o limite?”. “O limite é o bom senso. Eu não tirei pedaço de sua bunda, não passei a mão na sua bunda e para dizer a verdade eu vi apenas o contorno de sua bunda. Ela continua um mistério para mim”. Ela pareceu pensar no assunto. “Você acha que eu sou idiota?”. “Eu já disse que isto é coisa que nunca me passou pela cabeça”. “É o que é passou pela sua cabeça?”. “É a sua vez”. “O quê?”. “A moça do caixa está chamando”. Ela olhou decepcionada: chegara a vez dela. Fila de mercado demora, mas também anda. A mulher de trás que ouvia tudo, perguntou: “O que é que passou pela sua cabeça?”. Ele olhou a mulher de trás, era melhor que a mulher da frente. E ela tinha um par de seios, que era coisa de louco. Ele suspirou e ouviu a moça do caixa chamar. “Desculpe, mas agora é minha vez”. A mulher de trás arfou os seios e sorriu. Ele não tinha a menor idéia do que aquele sorriso representava, mas enquanto caminhava para o caixa ele não deixou de pensar que o conjunto formado pela bunda da dona da frente com os seios da dona se trás, era algo simplesmente estonteante.

Escrito por Iskandar, o ogro da Zona Dois às 13h40
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05/10/2009


As piranhas do Egidio

   Egidio tinha um bordel. E o bordel era cheio de piranhas de todos os tipos, loiras, morenas e ruivas. Altas, baixas, magras e gordas. Tinha russa, polonesa, italiana e japonesa, além de negras e argentinas. Tinha aquelas faladeiras e tinha as que ficavam naquele silencio encantador e misterioso. As que choravam durante o trabalho, as que gemiam e as que riam divertidas. Tinha as que faziam serviço completo e tinha as especialistas que fazia apenas uma coisa, mas o que faziam era de deixar o cliente recompensado. Umas se vestiam de piranhas, outras de freiras, algumas de professoras, e muitas de alunas. A imaginação era dona do lugar. Agenor foi uma noite ao bordel do Egidio, não estava a fim de nenhuma dona em particular, apenas em contemplar aquele plantel fabuloso que era de fazer qualquer palácio das mil e uma noites parecer um convento de Monza. Agenor disse: “Você deve ter muitas histórias, hein Egidio?”. Egidio respondeu: “Vou te contar, dava para fazer um filme”. Agenor sugeriu: “Por que, então, você não faz um filme?”. Egidio pensou e respondeu: “Boa idéia”. Ele fez um filme com seu bordel e suas garotas. E deu o nome de “As piranhas do Egidio”. O filme foi um grande sucesso. 

Escrito por Iskandar, o ogro da Zona Dois às 14h10
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28/09/2009


Comprei, paguei e não gostei

   Há algumas semanas eu resolvi colecionar a série da Folha de S. Paulo sobre os grandes museus. O preço, sempre ele, me convenceu. Livros de capa dura, papel de qualidade a preço módico. Não há quem resista. Mas na primeira compra, dois volumes pelo preço de um, coisa que não tem como reclamar, eu já tinha motivos para reclamar. Erros de revisão. Eu não suporto erros de revisão. Como alguém produz livros de arte com erros de revisão? Tem que mandar um cara destes pra solitária.

   Mas, tudo bem. O preço, sempre ele, era bom. Além do preço, o texto – com erro de revisão ou não – não era ruim. Boas informações, o livro é uma introdução para quem quer saber alguma coisa sobre os grandes museus, já que não tem como conhecer o acervo de cada um, alguns com mais de 60 mil obras e outros com mais. Mas, se um dia puder ir lá, coisa que não acredito, este tipo de obra ajuda a queimar etapa. Afinal, é uma grande besteira o sujeito sair daqui e ir a Londres, Nova York, Paris ou Roma, para um monitor falar por duas horas coisas que o cara pode em casa, deitado na cama e ouvindo Wagner ou Haydn, saber do mesmo jeito.

   Tá bom. Fui em frente. Mas ontem fiquei prostituto da vida. Justamente o volume que mais esperava - o do MASP - me frustrou. E mais, me frustrou completamente. Eu conheço alguma coisa do museu, fui lá umas quatro vezes, que não é muito. Aí o cidadão pega um texto sem vergonha, ralo, sem paixão, é pra subir nas tamancas. Mas não é só isso. Quando acaba fica a sensação de que o cara foi roubado. Tem coisas que não eram para estar ali e coisas que eram para estar, não estão.  

   Por mais que eu goste de Alfred Andersen, acho exagero ele estar no volume. Ainda mais com aquele quadro, uma marina razoável, quando o pintor noruego-paranaense tem coisas melhores. E não só ele. Tem um retrato do Benedito Calixto, também exagero. E um Almeida Junior, que se fosse o “Picando fumo”, que é um quadro, na minha opinião, com a mesma importância icônica do “Gótico americano” de Grant Wood, vá lá. Mas não. 

   Antes que alguém tenha a idéia de achar que sou contra pintores brasileiros no catálogo do MASP, vou de cara dando um stop. O museu tem dezoito quadros do Portinari. E Portinari é um dos maiores pintores brasileiros. O museu tem “A criança morta”, da série Retirantes.Tem “Enterro na Rede”, da mesma série. E, finalmente, o famoso “O lavrador de café”, que ganhou notoriedade quando roubado o ano passado. E faz um catálogo e deixa o sujeito de fora! Ta bom. O curador ou curadora não gosta do Portinari. Mas o museu tem Lasar Segall, Ernesto de Fiori, Tarsila do Amaral, Rego Monteiro e Anita Mafalti. E vamos parar por aqui.

   Sem contar que entre os estrangeiros, acho “Monsieur Fourcade” um belo quadro de Toulouse-Lautrec, mas “Paul Viaud em Almirante” é muito mais impactante, com aquela grande mancha vermelha tomando conta de quase todo espaço. O museu tem em seu acervo outras obras mais intrigantes e provocativas de Lautrec. Outra coisa: se o texto insiste que o forte do museu é a escola francesa, porque não um Matisse? Ou Leger. Tá bom que o MASP não tem um Matisse de arrebentar, embora eu goste daquele torso de gesso que ele fez. Mas porque um Suzane Valadon, e não o belo quadro de Ultrillo, que é filho de Suzane. Não que eu não goste de Suzanne Valadon – modelo de grandes pintores e que acabou virando pintora também. Mas o museu tem coisas muito melhores. Aliás, o belo do Ultrilo é por conta do quadro, que Maurice era feio de dar dó. Ao contrário da mãe, uma gostosa de dar água na boca (ilustração é a dona pintada por Renoir). E porque não “O Retrato de Suzanne Bloch”, um dos melhores Picasso da fase azul? Sinceramente, não dá para entender.

 

 

 

Escrito por Iskandar, o ogro da Zona Dois às 14h48
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06/08/2008


Escrito por Iskandar, o ogro da Zona Dois às 11h00
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