Irmão assassina Hélio Oiticica

Na noite de ontem para hoje um incêndio na casa da família do artista plástico Hélio Oiticica no Jardim Botânico no Rio de Janeiro destruiu quase todo acervo do artista, justamente no momento em que ele estava em alta no mercado internacional. Oiticica não é o tipo de artista que tem muita coisa em coleções por aí afora. Então o estrago é irreparável. Um acervo destruído era formado por pinturas e esculturas. Algo perto de 2 mil obras. O prejuízo cultural é simplesmente incalculável. O financeiro avaliado em US$ 200 milhões.
César Oiticica, irmão do artista, saiu com esta resposta: “Sinto que eu fracassei na minha missão, depois que me aposentei, era cuidar da obra dele, da divulgação e da guarda da obra dele”. Sente? Pode ter certeza, mano. Você foi um perfeito fracasso. Adianta o sujeito dedicar a vida a produzir uma obra que tem ressonância nacional se tem um irmão deste naipe? É brincadeira. Mas se fosse um caso isolado, poder-se-ia dizer que era um caso isolado. Mas o Rio de Janeiro em matéria de responsabilidade com coisa coletiva tem dado muitos maus exemplos, isto contando que a tradição brasileira não é lá grande coisa. Mas o Rio, o carioca, quer mesmo é bater recordes.
Não é de hoje que a gente cisma com uma certa falta de responsabilidade do brasileiro com a coisa pública e este comportamento que beira às raias da irresponsabilidade quando não a supera com folga, causa um prejuízo danado à coletividade, quando a coisa cai no Rio. O incêndio do MAM em 1978 que consumiu obras de Picasso, Miró, Max Ernest, René Magritte, Salvador Dali, Di Cavalcanti e quase toro acervo de Joaquin Torres-Garcia, um artista uruguaio muito conceituado até hoje, que estava exposto lá e não pertencia ao museu, foi um escândalo internacional. E ficou nisso. Porque fogo ninguém prende e manda pro xilindró. E ele não devolve o que leva. Tem gente que calcula que 90 por cento do acervo foi pro vinagre. Se não tivesse sido destruído, o museu poderia ser hoje uma referência em arte moderna, como é o MAC de São Paulo, disputando a condição de segundo maior museu do País. Hoje é merreca (em relação ao que tinha), embora ainda tenha algumas coisas por lá, como Pollock e Brancusi.
Depois veio a deterioração do acervo da cinemateca, que não se perdeu porque foi transferido para São Paulo. Furtos não recuperados de obras na Biblioteca Nacional viraram coisa normal. Assim como no museu da Chácara do Céu de onde saíram obras de Picasso, Matisse, Claude Monet e Salvador Dali. O Matisse avaliado em US 13 milhões. Isto sem contar com a deterioração do acervo reunido por Nise da Silveira para o Museu do Inconsciente que praticamente ficou jogado às traças depois que ela morreu.
Depois o pessoal cisma – e vamos registrar, o carioca, o povo carioca não vibra com uma coisa destas, na realidade tem vergonha – e os que comandam o estado acham que é perseguição. Por exemplo: o recente escândalo com o uso dos recursos para sediar os Jogos Pan Americanos, avaliados inicialmente em R$ 400 milhões e que custaram a bagatela de R$ 4 bilhões. Onde foi parar o resto? O gato comeu, claro. E agora tem o negócio a longo prazo dos Jogos Olímpicos, avaliados em R$ 30 bilhões. Onde vai parar esta grana? Nem é preciso ir numa cartomante. E no meio a Copa do Mundo. Com tanta responsabilidade demonstrada em ocasiões anteriores, acho que a única reação diante do que vai acontecer e sentar e chorar antecipadamente.
Como diria o comentarista Neto, da TV Bandeirantes, é brincadeira sô! Oiticica teve uma morte terrível, foi encontrado apodrecido no seu quarto, o que é cruel, sinal de abandono. E agora o seu trabalho, reconhecido internacionalmente, foi destruído, o que é sinal de abandono. Foi assassinado duas vezes, por abandono e irresponsabilidade.




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