O corcunda sedutor
O corcunda tinha um olho verde e outro azul, que era de vidro, depois de uma partida entre Britânia e Primavera. O beque alemão pulou mais alto e forte e bateu na testa do corcunda, que ficou cego na hora de um olho. O olho prejudicado foi retirado. O médico só tinha olho de vidro azul no estoque e o corcunda balançou a cabeça triste: “Não tem importância, vai azul mesmo”. Ele ainda jogou bola com a camisa vermelha e branca, número 9 nas costas até o dia em que o alemão, agora jogando pelo Palestra entrou na perna do corcunda e quebrou o joelho. O corcunda ficou manco. E passou a arrastar a perna esquerda. A irmã do alemão ficou com pena do corcunda, tinha por ele aquele afeto que as crianças tem por filhotes de pássaros que despencam do ninho na calçada. Até aí, tudo bem, não fosse a irmã do alemão uma dona muito gostosa e meio sem juizo. Era uma alemã loira, de olhos verdes, bonita, chamada Ingrid. Uma noite no Vasco da Gama, o corcunda aproveitou que o alemão estava bêbado e que Ingrid tomou dois copos de chope com dose de Steinhaeger mergulhada em seu interior e a tirou para dançar. Apesar de corcunda e arrastando o pé para um lado, ele dançava bem. E ele soprou nos ouvidos da deusa germânica alguns versos de uma canção chamada “Plaisir D'Amour”, em francês. Ninguém sabe se foi a música ou o Steinhaeger que o corcunda colocou no chope da dona, mas naquela noite o corcunda arrastou Ingrid para as bandas do cemitério municipal e no silêncio da noite deflorou a irmã do alemão, que na hora do prazer arranhou a corcunda do corcunda, que ficou em carne viva. A bela moça engravidou e o alemão quis matar o corcunda. Quem não deixou foi o presidente do Palestra. “Você vai preso. Nunca mais vai jogar bola”. Jogar bola era tudo que o alemão queria na vida. Estava para entrar no time profissional. O alemão disse para o corcunda nunca mais aparecer perto da irmã dele, se não quisesse conhecer o cemitério municipal antes do dia 2 de novembro. O corcunda respondeu: “Tudo bem”. E por prudência foi para as bandas do Água Verde. Ele acabou sendo diretor social do clube e cantou muitas vezes “Plaisir D'Amour” nos ouvidos de muitas moças, algumas delas loiras de olhos verdes e outras não, mas algumas ficaram grávidas, outras não. O mais estranho era que nunca deram queixa do corcunda na pólícia. E quase todas achavam lindos aqueles olhos de cores diferentes e aquele jeito de andar meio dançando, duas heranças que o alemão deixou para o corcunda. A corcunda era de nascença. Mas o segredo do corcunda era o Steinhaeger que ele colocava no chope das moças.






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