Comprei, paguei e não gostei

Há algumas semanas eu resolvi colecionar a série da Folha de S. Paulo sobre os grandes museus. O preço, sempre ele, me convenceu. Livros de capa dura, papel de qualidade a preço módico. Não há quem resista. Mas na primeira compra, dois volumes pelo preço de um, coisa que não tem como reclamar, eu já tinha motivos para reclamar. Erros de revisão. Eu não suporto erros de revisão. Como alguém produz livros de arte com erros de revisão? Tem que mandar um cara destes pra solitária.
Mas, tudo bem. O preço, sempre ele, era bom. Além do preço, o texto – com erro de revisão ou não – não era ruim. Boas informações, o livro é uma introdução para quem quer saber alguma coisa sobre os grandes museus, já que não tem como conhecer o acervo de cada um, alguns com mais de 60 mil obras e outros com mais. Mas, se um dia puder ir lá, coisa que não acredito, este tipo de obra ajuda a queimar etapa. Afinal, é uma grande besteira o sujeito sair daqui e ir a Londres, Nova York, Paris ou Roma, para um monitor falar por duas horas coisas que o cara pode em casa, deitado na cama e ouvindo Wagner ou Haydn, saber do mesmo jeito.
Tá bom. Fui em frente. Mas ontem fiquei prostituto da vida. Justamente o volume que mais esperava - o do MASP - me frustrou. E mais, me frustrou completamente. Eu conheço alguma coisa do museu, fui lá umas quatro vezes, que não é muito. Aí o cidadão pega um texto sem vergonha, ralo, sem paixão, é pra subir nas tamancas. Mas não é só isso. Quando acaba fica a sensação de que o cara foi roubado. Tem coisas que não eram para estar ali e coisas que eram para estar, não estão.
Por mais que eu goste de Alfred Andersen, acho exagero ele estar no volume. Ainda mais com aquele quadro, uma marina razoável, quando o pintor noruego-paranaense tem coisas melhores. E não só ele. Tem um retrato do Benedito Calixto, também exagero. E um Almeida Junior, que se fosse o “Picando fumo”, que é um quadro, na minha opinião, com a mesma importância icônica do “Gótico americano” de Grant Wood, vá lá. Mas não.
Antes que alguém tenha a idéia de achar que sou contra pintores brasileiros no catálogo do MASP, vou de cara dando um stop. O museu tem dezoito quadros do Portinari. E Portinari é um dos maiores pintores brasileiros. O museu tem “A criança morta”, da série Retirantes.Tem “Enterro na Rede”, da mesma série. E, finalmente, o famoso “O lavrador de café”, que ganhou notoriedade quando roubado o ano passado. E faz um catálogo e deixa o sujeito de fora! Ta bom. O curador ou curadora não gosta do Portinari. Mas o museu tem Lasar Segall, Ernesto de Fiori, Tarsila do Amaral, Rego Monteiro e Anita Mafalti. E vamos parar por aqui.
Sem contar que entre os estrangeiros, acho “Monsieur Fourcade” um belo quadro de Toulouse-Lautrec, mas “Paul Viaud em Almirante” é muito mais impactante, com aquela grande mancha vermelha tomando conta de quase todo espaço. O museu tem em seu acervo outras obras mais intrigantes e provocativas de Lautrec. Outra coisa: se o texto insiste que o forte do museu é a escola francesa, porque não um Matisse? Ou Leger. Tá bom que o MASP não tem um Matisse de arrebentar, embora eu goste daquele torso de gesso que ele fez. Mas porque um Suzane Valadon, e não o belo quadro de Ultrillo, que é filho de Suzane. Não que eu não goste de Suzanne Valadon – modelo de grandes pintores e que acabou virando pintora também. Mas o museu tem coisas muito melhores. Aliás, o belo do Ultrilo é por conta do quadro, que Maurice era feio de dar dó. Ao contrário da mãe, uma gostosa de dar água na boca (ilustração é a dona pintada por Renoir). E porque não “O Retrato de Suzanne Bloch”, um dos melhores Picasso da fase azul? Sinceramente, não dá para entender.




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